FIONA APPLE PARA A BILLBOARD

Vai aí embaixo o texto original que escrevi sobre o álbum novo da Fiona Apple. Publicado na edição 32 da Billboard Brasil.

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Fiona Apple é um ser único no panorama pop mundial. Diva dos alternativos consagrada já no primeiro álbum, o excelente ‘Tidal’ (96), sem fazer nada do que se fazia musicalmente na longínqua década de 90, a cantora americana viu desde então um crescente desinteresse por seus discos posteriores – muito devido ao seu próprio comportamento, sempre arredia, deprimida, sem fazer shows, sem dar entrevistas, longe de tudo.

Por tudo isso, o retorno da cantora ao circo pop em 2012 foi quase saudado como a segunda vinda de Cristo. E já pelo longuíssimo nome do álbum novo, sabíamos que a moça, mais uma vez, não ia fazer concessões com a sua música.

Depois da voz de Apple, o piano é a grande estrela de ‘The Idler Wheel’. As melodias truncadas dão um ar menos pop e mais ‘arte’ à obra. E justamente por isso, ao fim do disco você já está um pouco cansado, mas é lá que estão os dois destaques: a bonita ‘Anything We Want’, com sua melodia quase deprê, e ‘Hot Knife’, com um arranjo de cabaré do fim do mundo.

Fiona Apple usa ‘The Idler Wheel’ como um atalho para um vastíssimo leque de emoções. Raiva, paixão, rancor, doçura, inocência, sarcasmo – está tudo reunido nestas dez faixas nada fáceis de ouvir. Uma compilação para desopilar o fígado. O dela, pelo menos.

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ALABAMA SHAKES PARA A BILLBOARD

Vai abaixo o review que fiz do primeiro álbum do Alabama Shakes para edição 31 da Billboard Brasil.

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ALABAMA SHAKES – ‘BOYS & GIRLS’

É difícil acreditar que a banda que mais burburinho vem causando no mundo indie faz um som retrô até o osso, um rock sulista de deixar encabulado até o mais caipira dos fãs do ZZ Top. Mas é exatamente isso: o Alabama Shakes preenche todos esses requisitos e fez até David Letterman se perder em elogios após uma apresentação do grupo em seu programa.


A vocalista Brittany Howard é o motor e alma do grupo. A falta de originalidade como um todo é compensada pelo vigor e emoção da voz da moça imagine um cruzamento de Janis Joplin com Aretha Franklin para os descolados
do Brooklyn. A performance ainda ganha pontos pelo fato de Brittany ser uma
negona cheia de estilo e cabelo quase black power. Se sua onda é inovação, pode
pular fora. Mas se você está só a fim de um rock sulista classicão para tomar
umas cervejas, você vai se sentir em casa.

TYLER, THE CREATOR PARA A BILLBOARD

Vão abaixo meus pitacos na íntegra para a Billboard Brasil sobre o álbum do rapper mais falado de 2011: Tyler, The Creator.

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Tyler, The Creator – ‘Goblin’

Capa da Billboard americana, frisson no SXSW, show disputadíssimo no Coachella, turnê sold out pelos EUA – Tyler, The Creator, 19 anos, é a bola da vez no hip hop. Principal cabeça do coletivo Odd Future Wolf Gang Kill Them All, o rapper recoloca Los Angeles novamente na briga pelo troféu do rap americano.

E Tyler, que acaba de estrear em disco com ‘Goblin’, fez um belo trabalho: o que se ouve aqui passa longe do que domina o mainstream do estilo. O grande trunfo do álbum são as bases e arranjos, é uma batida melhor que a outra. Alguns destaques são ‘Yonkers’, ‘Transylvania’ e ‘Tron Cat’.

Grande parte do burburinho em cima do moleque tem um pé na polêmica – as letras recuperam o discurso guns and bitches violento do gangsta rap e são de extremo baixo astral, falando de suicídio, estupros filmados e tiros na escola.

PROSUMER – ‘SERENITY’

‘Serenity’ foi lançado em 2008 e de lá para cá ainda não perdeu o posto de melhor disco de house da minha coleção em muito tempo.

Ressuscitei o dito cujo recentemente – e que alegria! Classudo, dançante, extremamente bem produzido, excelentes vocais e melodias. Responsável pela produção também está  Murat Tepeli.

À época do lançamento do álbum, entrevistei o Prosumer para Vogue RG. Vai a íntegra aí abaixo:

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O DJ e produtor Prosumer – Achim Brandenburg na carteira de identidade – e o músico Murat Tepeli são os responsáveis pelo disco mais bacana da dance music deste início de 2008. A house music de ‘Serenity’ (que só por milagre chega ao Brasil) está muito bem cotada na imprensa especializada, entre os promoters mais tarimbados e nos clubes que importam, alçando a dupla ao posto de ‘Você precisa escutar!’ da vez.

A trajetória dos dois é inusitada. Murat, turco, foi estudar na Alemanha. Achim era artista gráfico e vivia na loja de discos Hard Wax. Lá os dois se conheceram e, por dica dos donos da loja, que viram potencial nas produções isoladas de cada um, começaram a trabalhar juntos anos mais tarde.

Além de Prosumer e do conterrâneo Dixon, não se vê muitos beats de house alemão fazendo barulho no resto do mundo. ‘Serenity’ é, portanto, um verdadeiro oásis no meio de tanto techno neurose e minimalista tão em voga no momento – lá e cá. ‘Fazer house não foi uma decisão ou uma escolha. Faço música para me expressar, e deu nisso’, diz Prosumer, falando de seu estúdio na Alemanha. E continua: ‘Amo Berlim, que internacionalmente é conhecida pela cena de techno, mas também temos um underground com excelente house music por aqui’, garante ele.

Prosumer e Murat solidificaram de vez um caminho que já vinha sendo construído por alguns singles recentes: uma transição do som minimalista cabeçudo e mecânico para as sonoridades clássicas e ‘deep’ da house, mais precisamente a de Chicago, o que explica os muitos vocais espalhados pelas 17 faixas do disco. ‘Esta é a minha principal influência, quando comecei a comprar CDs, foi nesse som que pirei, todos aquele selos clássicos de Chicago, com tanta coisa legal sendo lançada…’, suspira o DJ, para em seguida fazer a ressalva de que não escuta só eletrônica, que entram muitas outras coisas no cardápio e tem paixão por música pop e hip hop.

‘Serenity’ foi feito com garra e paciência. Além do trabalho à distancia (Murat mora na cidade de Colônia, e Prosumer em Berlim), algumas faixas do disco foram gravadas ao vivo, na pista de dança do já ícone clube Panorama Bar, onde Achim é DJ residente há quatro anos. ‘Gravar em estúdio é mais seguro, mas ao vivo a gente capta o calor especial de determinado momento, por isso resolvemos usar algumas faixas que gravamos durante uma apresentação lá’, explica.

No meio de todo o groove sensual do disco, um achado – a voz de Elif Biçer, bartender que virou cantora, numa versão clubber da história da cinderela. Prosumer revela os detalhes: ‘Elif era bartender no Panorama, não sabíamos que ela cantava. Até que depois de um show saímos num grupo grande, ficamos todos bêbados e alguém comentou que ela tinha uma voz ótima. Pedimos para ela cantar e ficamos boquiabertos assim que ouvimos, realmente surpresos. Foi assim que ela foi parar no disco. E acabou virando nossa agente também’, diz aos risos.

Os dois ainda curtem o sucesso do CD, que está vendendo acima do esperado, por isso ainda não há sinais de um segundo álbum. Os planos para o futuro próximo incluem mais colaborações em conjunto e um relançamento de ‘Serenity’ com um disco extra de remixes para este ano ainda. Planos de vir ao Brasil? ‘Olha, gostaríamos muito. Na verdade, nossa booker está conversando com algum produtor daí. Não sei como estão as coisas, mas há uma chance de fazermos um show aí em breve’, revela ele. A gente fica na torcida.

DISCO DO DEAD WEATHER PARA A BILLBOARD

Aí embaixo vai a resenha que fiz para a Billboard do disco novo do Dead Weather. E não é que esse Jack White faz coisa boa quando deixa o White Stripes de lado?

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The Dead Weather – Sea of Cowards

Pouco mais de um ano depois de ‘Horehound’, o incansável Jack White solta o segundo álbum de sua banda paralela The Dead Weather, ‘Sea ofCowards’. Qualquer um mais desconfiado afirmaria: ‘Tudo sobra de estúdio’. Porém, o talento de White é tanto que ‘Cowards’ tem cara e personalidade próprias, sem clima de enrolação.
O quarteto continua bebendo das mesmas fontes de sempre – tem horas que você acha que está ouvindo um disco do Zeppelin ou do Sabbath. Mas, com  aajuda de uma produção esmerada e efeitos bem colocados (voz processada, riffs nos synths) moderniza esse clima 70s tão característico do grupo.
Além de White, tem destaque a vocalista Alison Mosshart, do Kills, que tem seu melhor momento em ‘The Difference Between Us’ (só eu ouvi ali um riff muito parecido com ‘Smells’, do Nirvana?). A pergunta que fica é: com uma banda dessas, o que Jack White ainda quer com o White Stripes?
Clica na foto para escutar o álbum.